REFLEXÃO SOBRE A VIDA E A MORTE
por Adão Cruz
Quadro de Adão Cruz
A Humanidade é uma profunda e intrincada rede de relações, de relações humanas muito complexas. Todas as coisas vivas são assim. As coisas vivas não são sistemas fechados. O cérebro de cada um de nós, esse maravilhoso órgão que é a estrutura mais complexa do planeta, cuja formação se iniciou há muitos milhões de anos – costumo dizer que somos tão velhinhos que ainda possuímos células do paladar no intestino – contém oitenta e seis mil milhões de células ou neurónios e cada um deles apresenta cinco mil ligações, o que leva a que o nosso cérebro seja uma densa floresta ligada entre si por cerca de quatrocentos milhões de milhões de ligações. Cada milímetro cúbico de cérebro contém mais conexões do que seres humanos à superfície da Terra. Apesar de encerrado num compartimento estanque, não se encontra isolado. Relaciona-se, permanentemente e mais ou menos intimamente, com todos os outros, e todos os outros se relacionam com ele de forma mais ou menos profunda, através dos múltiplos canais de comunicação que vão desde a linguagem falada, escrita ou gestual, à mímica, à postura, às atitudes, aos comportamentos. Todo o homem se relaciona mais ou menos activamente com os inúmeros fenómenos que o rodeiam e com tudo o que vê e não vê, ainda que o não saiba, com tudo o que entende e não entende, ainda que não se dê conta. O diálogo do Homem com o homem e do Homem com o mundo no seio da natureza e da Humanidade é permanente, profundo e inevitável. A isto chamamos Vida. Mas não só. Além de tudo isto, todos os nossos corpos são compostos das coisas à nossa volta, e à escala subatómica todos os nossos corpos e o mundo vivem uma dança constante de biliões de partículas intermutáveis. A chamada nucleossíntese estelar significa que todos nós somos a ressurreição física do material de estrelas mortas. Toda a nossa vida e toda a nossa realidade provém de elementos criados pelas estrelas. Toda a vida na terra nasce de uma galáxia de explosões. Os átomos usados na construção dos nossos corpos já foram usados biliões de vezes antes, e os átomos que agora existem no nosso corpo voltarão a ser usados biliões de vezes noutros corpos. Por exemplo, o ferro que faz o nosso sangue vermelho resulta dos últimos momentos de uma estrela e será transmitido por muitos milhões de anos a outros corpos se a vida na Terra entretanto não se extinguir. O copo de água que bebemos já foi uma nuvem, uma onda e um iceberg e existe há milhões de anos. Noventa e oito por cento dos átomos de hidrogénio do nosso corpo datam do início do universo. O nosso corpo cria em cada segundo milhões de células e a matéria atómica que as compõe é tão antiga como o tempo. Só a nossa pele contém dez mil milhões de células e cem mil milhões de bactérias, o que, contando com os milhares de milhões de bactérias internas, significa que não somos mais do que uma colónia bacteriana vivendo em simbiose. A vida e a morte são um ciclo. Um ciclo que sempre se repetiu biliões de vezes ao longo dos quatro milhões e meio de anos em que a Terra orbita o Sol. O berço de novas vidas é o leito de morte onde começam a decompor-se os nossos cadáveres. Tudo o que aqui refiro não nasce apenas da minha razão, mas da impressionante conclusão dos grandes e inúmeros cientistas em que se baseia o magnífico livro “Tudo o que não vemos” de Ziya Tong, grande jornalista e cientista canadiana. De uma forma muito real, aquilo a que chamamos morte não é mais do que o momento em que as partículas atómicas do nosso corpo se desagregam, se dispersam e voltam a fazer parte do universo e de outros seres, “vivos e não vivos”.


